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Sobrecarga e stress na equipe de saúde: ''Não sei até quando a gente vai aguentar'' diz trabalhador de Carazinho

Junho 07 / 2021

A população em geral que convive há quase um ano e meio com o novo coronavírus já sofre os efeitos da pandemia na saúde física e mental, bem como economicamente, com empresas fechando e empregos deixando de existir. Porém, para uma parcela de trabalhadores que ainda estão em atividade, aqueles que atuam na saúde, a chamada linha de frente de enfrentamento ao Covid-19, a realidade é ainda mais dramática. Pelo menos é o relato que chegou até a reportagem da Rádio Gazeta AM de quem atua no Hospital de Caridade de Carazinho (HCC).

Pessoas que se identificaram para a reportagem mas cujos nomes serão preservados aqui a seu pedido, pois acreditam que tal exposição pode prejudicar sua permanência na função, e não é isso que querem. 

''É um descontentamento geral, todos sobrecarregados, sem folga porque é preciso suprir colegas que estão com Covid, mas o corpo pede socorro, o risco de se contaminar novamente é bem grave. Tem colegas se contaminando novamente com a nova cepa. Dias atrás colegas tiveram que trabalhar em três cuidando de 30 pacientes. A situação é seríssima. Ninguém se recusa a fazer o seu trabalho, mas chegou num ponto que a gente para na hora do descanso e chora''.

Segundo essa pessoa, é oferecido acompanhamento psicológico a cada 15 dias, mas nem isso tem servido para amenizar o sofrimento emocional de ver o vírus avançar, colegas e pessoas conhecidas se afastando em razão dele, e nenhum aceno de uma valorização. ''O local do intervalo teve que ser mudado para colocação de leitos e passamos a um lugar onde ficamos em poltronas, e entendemos isso, mas teria que ter esse olhar mais humanizado em relação a nós, esse cuidado com a equipe''.

Essa valorização a que se refere é a financeira, e diz respeito às classes que dependem unicamente desse rendimento. A esperança de alguns era de que em uma data da categoria de saúde, por exemplo, fossem lembrados com um vale-supermercado, já que há quem esteja passando por dificuldades em casa, na família, devido ao cenário da pandemia que cortou empregos e deixou, em alguns casos, uma família dependendo do salário de uma única pessoa.

''As verbas tem vindo para o hospital, todos estão vendo, é dinheiro público, poderia ser dado um bônus a cada um de nós. Tem mães que dependem só desse salário. Algumas esperaram que o pagamento deste mês fosse feito no dia 04 de junho, mas deixaram para a segunda-feira (07) quando sabemos que o dinheiro está em caixa. Essa falta de nos ver como pessoas vai fragilizando. Estamos adoecendo com tudo isso, não só o vírus, mas a questão emocional''.

 

''Nem o Corem permite''

Outro relato diz respeito à falta de condições para o exercício da profissão que não estaria de acordo com o que prevê o Coren-RS, (Autarquia Federal que fiscaliza e normatiza o exercício profissional de enfermeiros (as), técnicos (as) e auxiliares de Enfermagem em todo o Rio Grande do Sul, garantindo a qualidade dos serviços e assistência à saúde).

''Há falta de funcionários, quem trabalha está sobrecarregado, aparelhos de pressão não funcionam, equipamentos precários, é uma calamidade mesmo, mas a mídia repassa outra coisa. Sabemos que a situação em si é assim para todo mundo, isso não é se queixar do trabalho, mas precisamos de ais condições para trabalhar, não se tem um incentivo, só querem que trabalhe, trabalhe e trabalhe, vão todos acabar ficando doentes, como uns já estão. No começo da pandemia a situação era precária mas a gente achava que ia melhorar, mas não foi isso o que aconteceu. Se tem situações que nem o Coren permite, como uma pessoa atendendo dezenas, não é o atendimento como deveria ser, mas não se pode deixar de atender''.

Segundo essa pessoa, todo paciente requer atenção, mas quem está na ala pós Covid-19 ainda mais. ''É bem grave, a pessoa não vai ao banheiro sem oxigênio, que pesa uns 50 kg, quem coloca e tira são os técnicos, se tem que ir no banheiro tem que ir junto com o oxigênio, são pacientes com sequelas, que tem muita falta de oxigênio, se vai ao banheiro sozinho corre o risco de cair ou desmaiar. A sobrecarga é enorme, faltam mais pessoas para trabalhar. O cansaço gera muito stress, acaba até brigando com colega. É muito importante o aplauso, mas nos mercados está tudo subindo (de preço) e precisamos nos manter''.

 

A direção

O presidente do HCC foi procurado pela reportagem. Jocélio Cunha explicou, quanto a folha de pagamento, e o repasse não ter sido feito totalmente na sexta, dia 04, que são quase 600 colaboradores na instituição é uma folha de quase R$ 1.500.000,00 e não havia todo o recurso em caixa. O município, que faria o repasse total na sexta-feira ficou sem conexão à internet e graças aos esforços feitos o pagamento ocorreu parcial na sexta e o restante nesta segunda-feira, dia 07. ''O HCC desde a assunção do prefeito Milton vem pagando com muita dificuldade a folha religiosamente em dia de seus colaboradores sempre no quinto dia do mês como prevê a legislação, e o quinto dia é hoje segunda, e já foi foram feitos os pagamentos da folha''.

Desde o início da gestão do prefeito Milton Schmitz, conforme Jocélio, o repasse é no dia 03 de cada mês, e o hospital efetua o pagamento rigorosamente sempre até o 5º dia útil, e para isso conta-se o sábado e descarta domingo e feriados de acordo com a CLT.

''O HCC prioriza sempre o pagamento da folha rigorosamente no prazo, muitas vezes em detrimento de outros compromissos financeiros'', afirmou.

Jocélio disse, ainda, que neste momento a folha está sendo paga em dia e com extrema dificuldade, considerando que todos os procedimentos eletivos estão proibidos por decreto estadual e a receita da instituição caiu bruscamente. ''Talvez o que possa acontecer no futuro pelo volume financeiro necessário a cada mês, e dentro de um pior cenário, é voltarmos a ter atraso na folha, o que não se espera, obviamente''.

 

Repasse do município

O montante repassado pelo poder executivo ao HCC mensalmente conforme contrato de prestação de serviço varia de um mês para outro, e é sempre feito no terceiro dia útil. Neste mês de março foi de R$ 1.800.000,00.




Publicado por: Ana Maria Leal E-mail: anamaria@gazeta670.com.br
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