Tradição

Pelos Caminhos de Anita Garibaldi

Adari Ecker
Setembro 16/ 2021

O Governo do Estado do Rio Grande do Sul decretou festividades para comemorar o bicentenário de nascimento de Anita Garibaldi, a “Heroína de Dois Mundos”. Assim como a comissão dos Festejos Farroupilhas e o MTG adotaram o tema deste ano que será: 

“Caminhos de Anita”. 

Como disse o amigo, poeta e declamador Ari Sebastião Streit, faltam palavras para  descrever a história de Anita. As festividades serão celebradas até o final do ano de 2021, envolvendo eventos e as atividades como: I - divulgar e promover a imagem, a saga, os fatos que protagonizaram as contribuições de Ana Maria de Jesus Ribeiro (1821 - 1849), conhecida como Anita Garibaldi; II - preservar e difundir a memória e a história da heroína com vistas a promover o turismo, de caráter histórico, cívico e cultural, compondo um roteiro para realização de eventos que deverão acontecer, sempre em comemoração ao bicentenário de seu nascimento; e III – homenagear a memória de Anita Garibaldi. Aninha era o apelido de Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva, que nasceu em Laguna/SC, em 1821, filha de Bento Ribeiro da Silva, comerciante e de Maria Antonia de Jesus Antunes. Depois passou a ser chamada de Anita e aos 14 anos, após a morte pai, casou-se com Manuel Duarte de Aguiar, um sapateiro.  O casamento durou pouco, pois o seu marido lhe dava pouca atenção e alistou-se nas tropas  imperiais para combater os Farrapos, abandonando-a. Os Rio-grandenses resolveram expandir a conquista para a província de Santa Catarina, pois precisavam de um porto. Decidiram tomar Laguna. Giuseppe Garibaldi que veio para a América por conta do seu envolvimento nas lutas de unificação da Itália, onde havia sido condenado à morte por conspiração no Reino da Sardenha. Chegou ao Rio de Janeiro, e por meio da Maçonaria conheceu Bento Gonçalves, que convidou-o para integrar as forças republicanas Riograndenses e organizar a marinha. Em 09 de maio de 1837, Garibaldi e seus patrícios italianos  assaltaram um navio austríaco que estava ancorado no Porto do Rio de Janeiro, carregado de café e vieram para o sul. Chegando ao porto de Maldonado, no Uruguai, local de livre comércio, onde imperava o contrabando. Eram doze homens, sendo oito exilados italianos, dois multados e dois negros. No Uruguai Garibaldi teve participação em episódios importantes. Depois de comercializar as mercadorias ancorou o navio numa enseada, junto ao Cabo Jesus Maria. Lá os corsários aguardavam para tomar novas iniciativas, porém, mesmo escondido o navio de Garibaldi foi avistado e foi atacado por navios da República Oriental. No combate Garibaldi foi ferido por um tiro que atingiu-lhe a garganta e a bala ficou alojada próximo da orelha esquerda. Mesmo a baixo de fogo cerrado o navio de Garibaldi conseguiu fugir nas brumas, seguindo pelo rio Paraná até a confluência do Rio Uruguai onde um navio Argentino o rebocou seguindo para o Porto de Gualeguay, Província de Entre Rios, onde Garibaldi e sua tripulação foram presos. Devido aos efeitos do tiro que sofrera, Garibaldi foi transferido para uma fazenda de propriedade Jacinnto Andreu, onde foi operado e a bala extraída pelo Dr. Ramón Del Arca. Lá Garibaldi ficou se recuperando, detido por aproximadamente dez meses. Foi em Gualeguay que Garibaldi aprendeu a andar à cavalo, laçar e bolear o gado. Quando conseguiu se libertar Garibaldi retornou para Montevidéu, onde se juntou com Luigi Rossetti e outros compatriotas italianos e numa madrugada de agosto de 1838 fugiram à cavalo. Passaram a fronteira em Jaguarão seguindo até Piratini, capital da República Rio-Grandense. Em conferência com Domingos José de Almeida Garibaldi e seus amigos italianos foram transferidos para as margens do rio Camaquã, onde edificaram o Estaleiro da República Rio-grandense e construíram os famosos lanchões Farroupilha, Rio Pardo e Seival. A guerra entrava no seu quarto ano (1839) e os Farrapos precisavam de um porto marítimo. Decidiram conquistar Laguna. Garibaldi foi designado líder da expedição marítima, na qual também foi agregada forças bélicas da cavalaria, lideradas por David Canabarro e Teixeira Nunes. Mas os imperiais obstruíam a saída dos Barcos Rio Pardo e Seival pelo curso do rio Camaquã. Então Garibaldi e seus camaradas conseguiram leva-los até o Rio Capivari e lá construíram duas grandes carretas puxadas por várias juntas de bois, colocaram os barcos em cima e seguiram por terra, em pleno inverno, atravessando campos e banhados  até o rio Tramandaí. Consta que percorreram uma distância de aproximadamente oitenta quilômetros. Foi uma verdadeira epopeia hoje contada em filmes e cantada em prosas e versos. Uma façanha nunca vista que surpreendeu até os adversários imperiais. A 14 de julho de 1839 os lanchõesseguiram para Laguna, sendo que o Seival era comandado pelo americano John Griggs, conhecido como "João Grandão", e o Farroupilha II por Giuseppe Garibaldi. Porém, só o Seival chegou a Laguna, o Farroupilha, comandado por Garibaldi, naufragou numa tempestade, perto de Araranguá, com muitas mortes, mas o italiano e alguns marinheiros conseguiram se salvar. Foram a pé até a Barra do Camacho, onde o Seival estava ancorado, aguardando-os. De lá seguiram pelo continente, pelas lagoas e rios que dão acesso à Laguna e surpreenderam os Imperiais que os esperavam pelo mar. A maioria dos habitantes de Laguna vibrou com a chegada dos Republicanos Rio-grandenses a 20 de julho de 1839. Então foi proclamada a República Juliana a 29 de Julho de 1839, e foi adotada uma nova bandeira com as cores verde, branco e amarelo. A administração provisória da cidade foi confiada ao Padre Don Vicenzo Ferreira dos Santos Cardoso, que tinha como seu Secretário de Estado o italiano Luigi Rossetti. O objetivo dos Farrapos era transformar todas as Províncias do Brasil em Estados Republicanos. Garibaldi ficou quatro meses em Laguna a bordo do Navio Itaparica, um dos cinco navios tomados dos imperiais, o qual ele rebatizou de Rio Pardo. Consta que enquanto os Farrapos aguardavam o desenrolar dos acontecimentos, Garibaldi observava a cidade com um binóculo. Certo dia viu a mulher que mudaria a sua vida. Então resolveu dar um passeio para vê-la de perto. Foi até próximo da fonte onde Anita costumava tirar água. Depois de alguns dias finalmente se encontraram. Anita contava com 18 anos. Logo depois a relação deles se tornou pública e a 23 de outubro de 1839, Anita resolveu acompanhar Garibaldi até o navio, onde o casal viveu intensa lua de mel. A partir daí Anita passou a conviver com Garibaldi, inclusive, acompanhando-o nos combates e batalhas. Conduzia colunas de soldados em marcha, ajudava a municiar as armas, atirava nos adversários e organizava hospitais de campanha para cuidar dos feridos. Em Laguna ocorreram memoráveis combates entre os Farrapos e os Imperiais, e deles Anita participou, sendo que por suas ações foi considerada uma verdadeira heroína. Mas no final a marinha imperial do Brasil retomou a cidade e os Farrapos tiveram que abandoná-la. Garibaldi e Anita seguiram pela serra até Lages, onde conquistaram importante vitória frente aos imperiais. De lá seguiram para o Passo de Santa Vitória, mas ainda no planalto catarinense derrotaram um grupo legalista. No Brasil a batalha de Curitibanos foi considerada a mais importante que Anita participou, na qual os Farrapos foram derrotados pela Imperial Brigada Cruz-altense, comandada por Mello Manso.Anita foi presa e Garibaldi dado como morto. Esta batalha aconteceu nos Campos das Forquilhas, próximo do rio Marombas e da Vila de Curitibanos. Consta que depois de presa Anita foi autorizada a procurar a cadáver de Garibaldi, que os imperiais diziam estar morto. Após ela foi colocada numa barraca onde ficou amarrada. O sargento Imperial Gonçalves Padilha se compadeceu da situação dela e resolveu dar-lhe fuga, inclusive, arrumou um cavalo para ela. Quando os sentinelas se descuidaram Anita fugiu e se escondeu numa casa próxima, onde se alimentou. De madrugada montou no cavalo e empreendeu fuga costeando rio Marombas. Conforme depoimento de Ari Sebastião Streit, há um CTG em Lages homenageando-a. Trata-se do CTG Barbicacho Colorado. Consta que antes da fuga Anita preparou um chapéu com uma vincha e um barbicacho da cor vermelha (colorada) para se identificar quando se aproximasse dos Farrapos. Ela seguiu por uma trilha que hoje abriga a cidade de Anita Garibaldi/SC. Acredita-se que tenha atravessado o Rio Canoas e depois o Rio Pelotas, antes da confluência desses rios que formam o Rio Uruguai. Depois Anita deve ter seguindo pelo caminho dos tropeiros rumo a Lagoa Vermelha, de lá até o Pouso 35, hoje cidade de David Canabarro, onde se encontrou com Giuseppe Garibaldi. Os Farrapos sobreviventes da Batalha de Curitibanos estavam acampados lá, aguardando a chegada de Bento Gonçalves e seu exército que vinham pela serra do Rio das Antas. Depois que Bento chegou ao Pouso 35 os Farrapos seguiram para Passo Fundo onde acamparam na atual Praça Tamandaré. Lá há uma placa de bronze que registra o fato histórico. Depois de descansarem seguiram para Jacuizinho (Carazinho), e acamparam na Fazenda de São Benedito, do Alferes Rodrigo Felix Martins, onde descansaram e realizaram conferência com lideranças republicanas da região. Após breve descanso partiram para Cruz Alta e de lá seguiram para a campanha Rio-grandense até São Gabriel. A derrota em Santa Catarina foi desastrosa para Giuseppe e Anita, que decidiram abandonar o Rio Grande e ir morar no Uruguai, único país que na época aceitava o divórcio e tinha reconhecido a República Rio-Grandense. Como indenização pela sua participação na Guerra dos Farrapos Garibaldi recebeu um rebanho de novecentas (900) cabeças de gado, e ele e Anita seguiram tropeando até Montevidéu, onde regularizaram a união, casando-se no ano de 1842. Lá o casal viveu de 1841 até 1848 e além de Menotti, tiveram mais três filhos. A experiência do marinheiro de Garibaldi fez com que fosse nomeado comandante da Marinha Uruguaia, chefiando a Legião Italiana formada por seus compatriotas, todos exilados. Nesta condição Garibaldi participou da Guerra Civil Uruguaia defendendo o Partido Colorado, frente ao Partido Blanco, aliado do Ditador Rosas, da Argentina. No final de 1848 Garibaldi enviou Anita e os seus filhos para Nizza (atualmente Nice, na França) a fim de preparar a sua chegada à Itália. Em 1849 Garibaldi chegou à Itália e foi eleito deputado, em Roma, e voltou a lutar pela unificação da Itália. O norte da Itália era ocupado pelos austríacos e os Estados Pontifícios eram defendidos por tropas francesas. Anita não aceitou ficar em casa e foi ao encontro do marido para lutar ao seu lado contra os austríacos e franceses, porém, as tropas de Garibaldi foram derrotadas em Roma, e Giuseppe e Anita tiveram que bater em retirada. Anita, mesmo doente, se recusou abandonar o marido e seguiu na luta com ele. Ao atravessar os Pântanos de Comacchio, prostrada pela fuga, pela malária e pela gravidez, Anita falece aos 28 anos de idade. Consta que Anita foi sepultada sete vezes e depois de muita confusão, o seu corpo ganhou um túmulo e um monumento em Roma, construído em 1932, durante o governo de Benito Mussolini. Giuseppe Garibaldi faleceu aos 75 anos e foi sepultado na ilha de Caprera. Hoje Garibaldi é o símbolo da liberdade, da humanidade e da fraternidade, seu carisma danificou a monarquia e a igreja romana. O casal Garibaldi e Anita foi vitorioso nas guerras da unificação da Itália e hoje Garibaldi é considerado um dos seus fundadores. Anita e Giuseppe Garibaldi tiveram quatro filhos. Três chegaram à vida adulta.


Curiosidades sobre Anita Garibaldi a "heroína dos dois mundos"

1. A casa onde Anita viveu em Laguna/SC

2. Antiga Casa da Câmara de Laguna, hoje Museu Histórico Anita Garibaldi

3. O município de Anita Garibaldi, elevado à cidade em 1961, se nomeia assim porque a Anita passou por lá em 1842 quando o lugar era apenas um ponto de descanso das 

tropas;

4. Anita Garibaldi foi tema da escola de samba Viradouro em 1999 com o enredo “Anita  Garibaldi - a Heroína das Sete Magias”;

5. Sua vida foi levada às telas de cinema em vários filmes italianos e o brasileiro “Anita e Garibaldi”, de Alberto Rondalli, 2013;

6. Por sua importância na história brasileira, Anita Garibaldi nomeia avenidas, ruas e  escolas por todo o Brasil;

7. Em 2012, foi inaugurada a ponte Anita Garibaldi, sobre a Lagoa do Imaruí, ligando a  cidade de Laguna ao continente.


BIOGRAFIA CONSULTADA

1. SANT’ANNA, Elma. A Odisseia de Garibaldi no Capivari. AGE, Porto Alegre, 2002.

2. GRANDENIGO, Gaio. Garibaldi In América. UNUCI, Montevidéu, 1969.

3. DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. L&PM Editores, Porto Alegre, 2000.

4. GAVILLUCCI, Mauro. UM ITALIANO SEGUINDO O CAMINHO DE GARIBALDI. José e sua Anita  entre o Brasil, Uruguai e Argentina.

Adari Francisco Ecker

Advogado e escritor

E-mail: adariecker@terra.com.br




Compartilhe esta coluna em suas redes sociais