Tradicionalismo.

Cavalgada das Reminiscências da Revolução de 1923

Adari Ecker
Junho 06/ 2019

Cavalgada das Reminiscências da Revolução de 1923

''O caso de Fontoura Soares da Silva, aos 95 anos de sua morte''.

FAZENDA DO SARANDY

O Barão de Antonina recebeu a Fazenda do Sarandi, Chapada,  Carazinho e Sta. Bárbara do Sul, do Império, por relevantes serviços prestados à Coroa, depois transferiu a posse de Sarandi ao neto.

A Fazenda tinha mais de 100 mil há. E em 1882, houve uma invasão de posseiros numa área de 12.886. João Vergueiro conseguiu a reintegração de posse da área invadida.

Por herança, a Fazenda pertenceu a Nicolau Vergueiro e sua irmã Isaura que a venderam em 1906 para Maílhos, Mourinõ e Lapido.

Depois da venda para os Castelhanos, ocorreu nova invasão. Mais de 400 famílias se estabeleceram nas margens do Rio da Várzea, nas localidades de Barra Funda, Barreirinho, Baio, Mendes e outras. 

Então os Castelhanos resolveram colonizar parte da áreas. Trouxeram colonizadores de Bento Gonçalves, Monte Belo e Cotiporã. Dividiram a Fazenda por uma cerca, abaixo da qual as terras poderiam ser colonizadas. A Cia Colonizadora era composta por Armínio da Silva, o Padre Eugênio Medicheschi, João Tesser e Paulo Dall´Óglio.

Mas quando iniciaram a colonização, encontraram 11 casas, nas imediações da atual Avenida Expedicionário, cujo líder Primo Savoldi, exercia a agricultura e lecionava para as crianças.

Quando constituíram a Empresa Colonizadora, deixaram Primo Savoldi de lado, ele descontente passou a fazer oposição aos líderes da Cia. Colonizadora. Primo Savoldi, na Revolução de 1923, exerceu o cargo de secretário particular do General Libertador/Maragato Leonel Rocha.

FONTOURA SOARES DA SILVA

Fontoura Soares da Silva nasceu em 07 de outubro de 1897, em Vila Rica, hoje Júlio de Castilhos. Filho de João Benetti, engenheiro da Rede Ferroviária e de Adélia Soares da Silva, de Júlio de Castilhos. Seu pai, acometido de pneumonia, faleceu quando Fontoura era criança. Sua mãe, casou-se novamente com Pantaleão Gonçalves da Silva, adquiriram terras em São Manoel, interior de Santa Bárbara do Sul, onde foram morar.

Fontoura ao se registrar, adotou o sobrenome ''Soares'' da mãe, e o ''Silva'' do padrasto. Em 1916 casou-se em Panambi com Bernardina Fagundes Carneiro. O casal passou a viver na Fazenda dos pais de Fontoura. Mas logo ele arrumou trabalho na rede ferroviária.

O casal teve três filhos, uma menina e dois guris, dos quais não consegui informações de seus nomes e nem dos seus paradeiros.

É tradição oral que numa noite de sábado Fontoura teve um sonho. Visualizou o local onde havia um tesouro enterrado. No domingo cedo, levantou-se, foi até o local e desenterrou o tesouro.

Pediu demissão da ferrovia e decidiu mudar-se. Sua mãe e irmãos menores estavam na Colônia Tamandaré. Ele veio ao encontro da mãe.

Depois resolveu se estabelecer na Colônia do Sarandi.

Não encontrei registros de aquisições de imóveis em seu nome. Se justifica pois a Cia. Colonizadora se constituiu oficialmente só em 1927.

Primeiro Fontoura se estabeleceu com a família na Vila de Sarandi, em 1919. Construiu casa e instalações. Lidava na agropecuária e arrumou trabalho com Primo Savoldi na Construção de casas para os colonos.

Depois adquiriu terras na margem esquerda do Rio Baio, perto de uma queda d´água e se fixou lá. Construiu casa e instalações e foi morar com a família, dando início a construção de um moinho.

Serrava a madeira num estaleiro, edificava o moinho e abria um canal para abastecer a roda d?água. Dedicava-se a agricultura e criação de animais.

REVOLUÇÃO DE 1923 - Ditadura republicana no Rio Grande do Sul

Numa página do Exército Brasileiro, disponível na internet, encontrei algumas informações sobre a Revolução de 1923.

[...] O Rio Grande, desde 1898 estava submetido ao arbítrio de Borges de Medeiros. [...] reelegia-se sistematicamente. [...] exercia os poderes Legislativo e Executivo acumulados, em flagrante conflito com a lei [...] enfeixava todo o poder. Tudo dependia dele. [...] Para se conservar o poder, Borges de Medeiros criou uma corporação militar, bem armada, instruída e atuante [...].

 [...] Em novembro de 1922, haveria eleições. Borges de Medeiros se apresentou como candidato [...] Era a sua quarta eleição, com um mandato intercalado de Carlos Barbosa. Era 25 anos de poder interrupto do Partido Republicano.

Borges precisava de três quartos dos votos, para se eleger.

 [...] Os oposicionistas apresentaram Assis Brasil, [...] que precisava de um quarto dos votos dos gaúchos.

As eleições se realizaram-se em clima agitado. Distribuíram-se contingentes de Policiais Militares para os locais de votação.

O voto não era secreto. [...], e havia:

- O impedimento de eleitores da oposição aos locais de votação;

- Pessoas votando diversas vezes;

- Pessoas votando com títulos de pessoas já falecidas.

ELEIÇÕES DE 1922 E REVOLUÇÃO DE 1923 EM SARANDI

Segundo José Benjamin Ribas, casado com Célia da Silva, genro de Armínio da Silva, em depoimento ao autor disse:

''O Escrivão Eleitoral da Vila de Sarandi, em 1922, era Daniel Apóstolo de Oliveira. Ele contava que recebera um saco de Títulos de Eleitores de pessoas já falecidas. Um auxiliar da Mesa Eleitoral chamava os nomes dos mortos e Apóstolo de Oliveira anotava no livro de votação, os votos para o candidato Borges de Medeiros. Disse mais, No dia da eleição foram assassinados dois Libertadores/Maragatos. Ele acreditava que eram fiscais eleitorais que se opuseram àquelas manobras de Apóstolo de Oliveira e por isto foram mortos''.

 

Nas eleições de 1922, o candidato Borges de Medeiros recebeu 75 votos na Colônia Sarandi.

Os ânimos ficaram exaltados e os colonos de ideologia do Partido Libertador/Maragato, com medo de represálias, afastaram-se da Vila.

Em 1922, a Cia. Colonizadora e a Firma Maílhos, Mourinõ e Lapido queriam iniciar a medição do lotes, mas se insurgiram os posseiros e aumentou a instabilidade política e social na Colônia de Sarandi.

Estava iminente o início da Revolução Libertadora de 1923.

Simião Machado, morador em Pontão, cabo eleitoral do Deputado Arthur Caetano da Silva, do Partido Libertador, atuava na Colônia Sarandy e prometia:

 

''Se vencedor o Dr. Assis Brasil, o Partido Libertador garantirá gratuitamente terras para os posseiros''.

 

Após apuração dos Votos no Estado, a Comissão Eleitoral se dirigiu à Borges de Medeiros para dar-lhe ciência da sua derrota. Mas se transformou em portadora de felicitações. [...] Consta que Borges teria dito: bem vindo meus amigos, vieram me transmitir o resultado de mais uma vitória. Depois foi o caos, murmúrios, alquimia eleitoral, manipulação, anulação das atas e outras artimanhas.... [...].

No final, a vitória de Borges de Medeiros, apesar dos protestos. [...]

Mas antes da posse, a oposição se levantou em armas.

De Carazinho, o deputado Arthur Caetano da Silva, do Partido Libertador, telegrafou ao Presidente da República Artur Bernardes, comunicando achar-se à frente de 4 mil revolucionários dispostos a só largar as armas quando Borges de Medeiros deixasse o poder. Pedia a intervenção do Presidente da República...[...].

Porém, Artur Bernardes, reconheceu válida a eleição [...] alegando não poder intervir no Rio grande do Sul [...].

ASSIM INICIOU A REVOLUÇÃO.

[...] No Rio Grande levantou-se um grito uníssono de revolta. Mas os revolucionários não dispunham de armas, munição e equipamentos.

O transporte era o cavalo.

[...]. Não lhes sobrava outra tática senão a guerrilha rural [...].

As tropas Borgistas eram dotadas de fuzis Mauser e de metralhadoras. [...]. E as tropas federais mantiveram-se neutras.

Nos municípios de Carazinho, Cruz Alta, Erexim, Palmeira, Passo Fundo e Vacaria, tropas de revolucionários sustentavam a luta contra as forças do General Firmino de Paula, desde o início de janeiro de 1923. Destacavam-se os chefes Leonel Rocha, Salustiano de Pádua, Mena Barreto, Felipe Portinho, Belizário Batista, Demétrio Ramos e Fabrício Vieira. [...]

 

ACAMPAMENTO DOS REVOLUCIONÁRIOS EM SARANDI

Quando atacados em Carazinho, os revolucionários sob o comando do General Mena Barreto e do Coronel Salustiano de Paula, recuavam até as serras de Sarandi, onde acampavam nas Águas do Angico e na margem direita do Rio Baio, onde havia cinco ranchos improvisados.

Para chegar no acampamento os revolucionários passavam na frente da morada de Fontoura Soares da Silva, talvez por isso, tenha havido algum tipo de envolvimento dele.

Consta que os revolucionários passavam muita fome, chegando ao ponto de matar cavalos, assar a carne e comer com o acompanhamento de almeirão bravo, que era picado nas caronas dos arreios.


A PACIFICAÇÃO

O Marechal Setembrino de Carvalho, do Exército, intermediou o conflito e a 14 de dezembro de 1923, lavrou-se o tratado de paz.

Após a pacificação os revolucionários foram pra casa cuidar dos seus afazeres.

ESCARAMUÇAS NA COLONIA SARANDI - A POSSE DA TERRA

Mas como disse Vencato (1994), começou a vindita dos Chimangos.

Grupos provisórios da Brigada Militar e Piquetes de Chimangos passaram a caçar os seus adversários Libertadores/Maragatos e os líderes dos posseiros da Colônia Sarandi. Depois de 1923, a revolução política passou a ser de cunho social e econômica, com ligação com a posse da terra. Os primeiros a serem mortos, de forma cruel, foram Fontoura Soares da Silva, Ezequiel Mendes, Capitão Severino e o Capitão Gaudêncio Machado dos Santos.

A MORTE DE FONTOURA

Quem conheceu Fontoura descrevia-o com as seguintes características:

Era branco, cabelos lisos, usava bigode, mais ou menos um metro e oitenta de altura. Tinha boa aparência, era bem asseado. Era respeitado e bem relacionado na vizinhança e na vila. Era de fala fácil, não alterava a voz para se comunicar, falava baixo mas com convencimento.

Quando saia de casa, encilhava um pingo a preceito, vestia-se à moda gaúcha, costumava usar meia bombacha, um casaco branco e um chapéu da mesma cor e no pescoço usava um lenço vermelho.

Sobre sua participação na Revolução de 1923, há opiniões controversas. Alguns citaram-no como Capitão Maragato. Outros disseram que arregimentava gente para formação dos piquetes do exército libertador. E outros disseram que ele não teve envolvimento com os revolucionários.

Mas Fontoura foi assassinado cedo da manhã, no dia 26 de março de 1924. Tinha pouco mais de 26 anos de vida.

Foi procurado em sua casa, no Baio, cedo da manhã, por três homens, que pediram para acompanha-los à Vila de Sarandi, para dar um depoimento. Arrumou-se e acompanhou-os.

Ao se afastar da casa, onde não poderiam lhe alcançar com a visão, surgiram outros homens e Fontoura teria sentido que fora emboscado.

Tentou reagir, mas foi laçado pelo pescoço e caiu do cavalo. Daí arrastaram-no, por aproximadamente um quilômetro numa picada com tocos e pedras.

Chegaram próximo de um pinheiro, na margem da picada, levaram-no até lá, amarraram-no e depois de muito o maltratarem com golpes de baioneta e coronhadas de fuzil, o mataram.

Quanto ao golpe derradeiro, há informações contravertidas. Alguns disseram que foi fuzilado, porém, a família dizia que fora degolado.

Consta que Bortolo Romio e Domingos Zambenedetti fizeram um caixão e sepultaram o corpo de Fontoura.

Logo depois, em represália os Libertadores/Maragatos/posseiros da região se organizaram e iniciaram os ataques a Vila e aos colonos.

O conflito mais violento se estabeleceu de 1924 até 1925, quando assassinaram Nicola Corteze, feriram seu filho e raptaram uma filha; também atacaram a turma da medição dos lotes e assassinaram o agrimensor João Pedro Flores e seu auxiliar; no final de 1924, efetuaram violento ataque a Vila de Sarandi e na oportunidade assassinaram Alfredo Baldissarela e Francisco Valduga, bem como, feriram o Padre Eugênio Medicheschi. Por fim, no início de 1925, assassinaram Alexandre Dalazén, em Barra Funda.

Conforme Almedoro Vencato (1994), o líder dos defensores da Vila era o padre Eugênio Medicheschi, que teria sugerido aos Irmãos Favretto construir dois canhões, para defesa da Vila.

Depois, com a Intervenção do Governo do Estado e do General Leonel Rocha, a paz foi alcançada, quando em 1927, a colonização foi retomada.

A MÃE DE FONTOURA VEM FOI BUSCAR SEUS OSSOS

Conforme a Lei, decorridos 5 anos da morte de Fontoura, sua mãe Adélia, acompanhada de uma filha, foi de Aranha até o Baio - Sarandi buscar os restos mortais de Fontoura. Colheu informações com Bortolo Romio e Domingos Zambenedetti para localizar onde estava sepultado.

Desenterraram os ossos. Reconheceram que era de Fontoura, por que ele costumava usar um bocó de couro curtido, na cintura, o qual não se deteriorou e dentro dele, encontraram o crucifixo que Fontoura sempre carregava consigo.

Colocaram os ossos numa bolsa e por ser tarde, pernoitaram na casa de Palmira Ceresólli.

No outro dia seguiram até Tamandaré, onde velaram os ossos e depois os sepultaram no Cemitério Público (Cemitério dos Meira).

Fica o registro desta história. Embora as informações sejam controvertidas, o que se apurou é que Fontoura era um gaúcho na verdadeira acepção da palavra. Lutou por liberdade. Lutou por sua gente menos favorecida pela sorte, os desprovidos de bens e de terras.

Os discriminados nacionais. Povo resultado da mestiçagem de brancos, negros e índios.

Morrer faz parte da vida.

E aquele que morre no cumprimento de um dever humanitário, vai com glória e sob o resplendor da gratidão humana.

Morrer peleando, em igualdade de condições, não é demérito, faz parte da simbologia e da dignidade humana. Mas, morrer emboscado, por número maior de adversários, é covardia.

 Fontoura perdeu a vida e o sonho, talvez, de botar a primeira indústria de Sarandi, um moinho. Perdeu tudo, inclusive, sua família.

Lembram que no início falei que Fontoura tinha achado um tesouro. Pois é, consta que recentemente esse tesouro foi encontrado por caçadores de tesouros, que vieram de longe, com aparelhos, e localizaram no local chamado perausinho, paredão na margem direita do rio Baio, logo abaixo de onde Fontoura morava.

Comprova-se assim que ele teria escondido o tesouro lá e quem sabe, tenha sido um dos motivos do seu assassinato.

Proclamamos também a memória da sua mãe, Adélia Soares da Silva, que naqueles tempos difíceis, de conflitos, perigosos, enfrentando tudo isto, foi buscar os ossos do filho e os sepultou com dignidade em Tamandaré.

Destaca-se o amor da mãe, demonstrada com atitude concreta, deixando familiares e amigos conscientes, orgulhosos do feito e do sentimento de amor, lealdade e valorização da família.

Esta é, de forma resumida, a história de Fontoura Soares da Silva e da sua mãe Adélia Soares da Silva.

 

Sarandi - Almirante Tamandaré do Sul - Carazinho, 1º a 03 de março de 2019.

 

 

Adari Francisco Ecker

Sobrinho-neto de Fontoura Soares da Silva

Patrão do Grupo Cultura e Tradicionalista Cavaleiros da Vereda das tropas

 


BIBLIOGRAFIA E FONTES CONSULTADAS

 

1.  Alves, Bernard José Pereira. O papel do MASTER na política agrária de Brizola no Rio Grande do Sul. CPDA /Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Congresso de Sociologia, 2009.

 

2.  Depoimento de Paulo Schmidt, ex-diretor do Instituto Gaúcho de Reforma Agrária sobre a criação do MASTER, em 1960, no Governo de Leonel Brizola e a Invasão da Fazenda Sarandi em 1962.

 

3.  Depoimentos de Vários sarandienses, conhecedores da antiga história da Fazenda do Sarandy e da colonização do município.

 

4.  Ecker, Adari Francisco. A Trilha dos Pioneiros. Editora Berthier, Passo Fundo, 2007.

 

5.   Vencato, Almedoro. Sarandi um recanto histórico do Rio Grande do Sul. Gráfica e Editora A Região Ltda. Sarandi, 1994.

 

Na foto aparece a cerimônia no túmulo de Fontoura.

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