História do Rio Grande do Sul em destaque

O sonho tradicionalista vai se apagando com o tempo (12)

Adari Ecker
Junho 06/ 2017

Tradicionalismo gaúcho é um movimento cívico-cultural que valoriza e preserva as tradições gauchescas do Rio Grande do Sul. João Cezimbra Jacques (foto), militar brasileiro, foi o precursor do Movimento Tradicionalista Gaúcho.



Do Tempo

Jayme Caetano Braun


O tempo vai repontando

O meu destino pagão

Vou tenteando o chimarrão

Da madrugada clareando

Enquanto escuto estralando

O velho brasedo vivo

Nesse ritual primitivo

Sempre esperando, esperando...


É a sina do tapejara

Nós somos herdeiros dela

Bombear a barra amarela

Do dia quando se aclara

Sentir que a mente dispara

Nos rumos que o tempo traça

Eu me tapo de fumaça

E olho o tempo veterano

Entra ano e passa ano

Ele fica a gente passa


Que viu o tempo passar

Há muita gente que pensa

Mas é grande a diferença

Ele não sai do lugar

A gente que vive a andar

Como quem cumpre um ritual

É o destino do mortal

É o caminho dos mortais

Andar e andar nada mais

Contra o tempo, sempre igual.


Tempo é alguém que permanece

Misterioso impenetrável

Num outro plano imutável

Que o destino desconhece

Por isso a gente envelhece

Sem ver como envelheceu

Quando sente aconteceu

E depois de acontecido

Fala de um tempo perdido

Que a rigor nunca foi seu.

Pensamento complicado

Do índio que chimarreia

Bombeando na volta e meia

Do presente no passado

Depois sigo ensimesmado

Mateando sempre na espera

O fim da estrada é a tapera

O não se sabe do eterno

Mas a esperança do inverno

É a volta da primavera.


Os sonhos são estações

Em nossa mente de humanos

Que muitas vezes profanos

Buscamos compensações

Na realidade as razões

Onde encontramos saída

Nessa carreira perdida

Que contra o tempo corremos

Já que, a rigor, não sabemos

O que haverá além da vida.


Dentro das filosofias

Dos confúcios galponeiros

Domadores, carreteiros

Que escutei nas noites frias

Acho que a fieira dos dias

Não vale a pena contar

E chego mesmo a pensar

Olhando o brasedo perto

Que a vida é um crédito aberto

Que é preciso utilizar.


Guardar dias pro futuro

É sempre a grande tolice

O juro é sempre a velhice

E de que adiante este juro

Se ao índio mais queixo duro

O tempo amansa no assédio

Gastar é o melhor remédio

No repecho e na descida

Porque na conta da vida

Não adianta saldo médio!


Há se eu pudesse corrigir meus erros. Aproveitar melhor meu tempo. Esquecer os sonhos imaginários e não mais acreditar em ilusionistas. 

Trago na garupa do meu cavalo, o sonho de um dia termos um lugar para a gauchada, que constituí o grosso da população do município cultuar nossas mais caras tradições. 

As tradições do sul do meu país. E apenas, ser feliz. 

Sorver um mate topetudo, contar causos ao redor do fogo, ressaltando a esperança de que podemos e merecemos realizar esta grande campereada. 

Precisamos lembrar que assim como nossos antepassados nos legaram uma identidade tradicionalista e moral, também precisamos fazê-lo para nossos descendentes.

Portanto, precisamos nos conscientizar de que os dias passam, os meses passam e nada de efetivo foi feito. E o tempo não volta atrás.

Vivemos no divisor de água da coxilha do albardão, na Capital da Hospitalidade. 

Aqui a tradição continua viva, num sentimento sublime, que só é sentida por aqueles que tem a alma pura, embora, sem um lugar adequado para cultuá-la. 

Local campeiro que traduza nosso sentimento, na alegria de um trago de canha, na cantoria, no churrasco e na confraternização com nossos melhores amigos, os cavalos. 

Mesmo com a demora e o silêncio, vamos aguentando o tirão. 

Não pensamos em nos achicar, pois somos feitos da velha fibra, construída por nossos antepassados em centenas de anos de lutas.  

Pelos caminhos que andarmos, vamos levando o sonho na garupa dos nossos cavalos, e mesmo diante da indiferença e dos percalços da vida, nunca pensamos em nos afrouxar.

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